Concreto frágil e papel na estrutura: MP investiga obra de R$ 709 mil em Itapuranga
Galpão do Espaço Cultural Cora Coralina é alvo de inquérito após prazos para correções vencerem sem comprovação dos reparos; fiscalização da Prefeitura também será apurada

O Ministério Público de Goiás abriu recentemente um inquérito para investigar falhas estruturais na construção do Galpão do Espaço Cultural Cora Coralina, obra contratada por R$ 709 mil pela Prefeitura de Itapuranga. Laudos apontaram resistência do concreto muito abaixo da prevista no projeto, e o MP constatou que, meses após o vencimento dos prazos estabelecidos pelo próprio Município para os reparos, não havia nos autos comprovação de que os problemas tivessem sido corrigidos. Aberto no final de setembro, o inquérito vai apurar a extensão dos problemas, eventual prejuízo aos cofres públicos, a responsabilidade pela execução dos serviços e a eficácia da fiscalização feita pela Prefeitura. A obra é financiada com recursos de emenda parlamentar federal. A investigação começou após uma denúncia sobre irregularidades na obra. Ao buscar informações sobre o caso, o Ministério Público requisitou à Prefeitura documentos sobre a execução do contrato, a fiscalização dos serviços e as condições da construção. A resposta do Município trouxe registros de problemas que vinham desde 2025 e, segundo o promotor, revelou uma situação “substancialmente mais grave” do que a inicialmente relatada. Os primeiros registros apresentados pela Prefeitura mostram que, em maio daquele ano, a empresa responsável foi notificada após uma paralisação considerada injustificada. Em agosto, uma nova cobrança apontou atraso nos serviços, deformações em vigas, problemas no concreto, uso inadequado de materiais e falhas na segurança dos trabalhadores. As dúvidas sobre a qualidade da construção levaram a exames mais detalhados. Em novembro de 2025, testes mostraram que o concreto não alcançava a resistência mínima prevista no projeto. Uma nova análise, feita em janeiro de 2026 com amostras retiradas da própria estrutura, confirmou resultados ainda mais baixos e encontrou irregularidades na composição do material. Foi nessa segunda avaliação que apareceram materiais estranhos incorporados ao concreto, descritos no laudo como aparentemente sacos de ráfia e papel. Diante dos resultados, os técnicos recomendaram uma vistoria mais ampla de toda a estrutura. Com os problemas já documentados, a Prefeitura determinou que a empresa apresentasse uma solução e realizasse os reparos. A recuperação da estrutura deveria ser concluída em até 30 dias, e a contratada teria ainda de apresentar um novo cronograma para terminar a obra. O Município também suspendeu um pagamento de R$ 80,2 mil enquanto as falhas não fossem resolvidas. O prazo passou, mas a solução não estava demonstrada nos documentos analisados pelo Ministério Público. Quando o inquérito foi aberto, meses já haviam transcorrido desde o vencimento das determinações da própria Prefeitura, sem que constasse nos autos comprovação de que os reparos tinham sido feitos. Também não havia uma avaliação atualizada que mostrasse em que condições a estrutura se encontrava. Agora, o Ministério Público quer apurar se o Município fiscalizou de forma adequada uma obra que já apresentava problemas conhecidos e se houve prejuízo aos cofres públicos. A responsabilidade da empresa contratada também será investigada. Técnicos ligados ao MP deverão analisar se o prédio oferece risco para quem venha a utilizá-lo e se a obra pode continuar ou precisa permanecer parada até que os problemas sejam resolvidos. Eles também vão avaliar se as providências determinadas pela Prefeitura eram suficientes para recuperar a construção. Outra questão ainda sem resposta é o estado atual do galpão. Como a última avaliação recomendou uma inspeção mais ampla e não havia comprovação dos reparos, o Ministério Público considera a realização de um novo exame de toda a estrutura. A investigação também vai chegar às contas da obra. O MP quer saber se os problemas encontrados justificam a retenção ou redução de pagamentos e se houve prejuízo aos cofres públicos. Caso isso seja constatado, os técnicos deverão tentar calcular o valor.




